"Mas a morte deve ser vista de noite, quando Benares se reduz ao essencial, isto é, às piras vermelhas que resplendem aqui e acolá, na escuridão. Com efeito, de noite desaparecem todos os aspectos da devoção indiana que a um europeu podem parecer irritantes e mesmo repugnantes, e resta apenas, nítida e clara, a concepção da morte que é, sem dúvida, a coisa mais importante deste país."
(...)Estamos dez minutos ou vinte, ou meia hora, a olhar para aqueles homens e para aquelas mulheres que têm os olhos fixos na fogueira em que arde o seu defunto; e por fim compreendemos que esta indiferença tão estóica não é a da insensibilidade e da frieza, mas sim a da religião, que considera a morte uma simples mudança de vestuário ou de invólucro. Naquela fogueira, de acordo com uma frase notória, não se consome uma pessoa única e irrepetível, mas sim um vestido coçado, que já não prestava, uma pele velha que se abandona por outra nova."
Uma ideia da Índia
Alberto Moravia
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