Com versos da cor da lua
és tão grande e pequenino
como esta página branca
em que leio o teu destino.
Dorme agora sossegado
como as nuvens à noitinha
que eu fico aqui a teu lado
com a tua mão na minha
Com versos feitos de sonho
é que eu te faço sonhar
que és golfinho e rouxinol
ou peixe de prata a brilhar.
E cada linha que tu lês
é perfeita como o traço
de um pintor que te envolve
com as cores de um abraço.
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.
Cada palavra que aprendes
tem o gosto da aventura
e a magia secreta
que há no acto da leitura.
Cada palavra que escreves
é um fruto já maduro
que cai da árvore dos sons
e tem sabor de futuro.
Cada palavra que aprendes
quando começas a ler
é o mundo a conversar
com quem o quer conhecer.
Cada palavra que juntas
àquelas que já sabias
é uma luz que se acrescenta
à que ilumina os teus dias
Falam contigo os poetas
como falam as abelhas,
desenhando borboletas
sobre as tuas sobrancelhas,
e nas páginas de espuma,
mesmo nos dias sombrios,
seguem de mansinho as rotas
de fantásticos navios.
Estes versos em que ensaias
o gosto que tens de ler
são os troncos em flor
da alegria de aprender.
A leitura é uma escada
feita à tua medida;
cada palavra sonhada,
cada palavra aprendida
será parente chegada
da secreta melodia
que na boca de quem lê
tem nome de Poesia.
José Jorge Letria
"Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar"
ilustrações de André Letria
Edições Ambar
quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Adormecer...
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Os raios luminosos, a cor
Diz-se muitas vezes que foram os pintores que inventaram a Fotografia (transmitindo-lhe o enquadramento, a perspectiva albertiniana e a óptica da camera obscura. E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema «Isto foi» só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade à luz dos sais de prata) permitiu captar e imprimir directamente os raios luminosos emitidos por um objecto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que vêm tocar-me, a mim, que estou aqui. Pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem tocar-me como os raios emitidos por uma estrela. Uma espécie de ligação umbilical liga o corpo da coisa fotografada ao meu olhar: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que eu partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.
Parece que em latim «fotografia» se diria: «imago lucis opera expressa», isto é, imagem revelada, «saída», «montada», «exprimida» (*) (como o sumo de limão) pela acção da luz. E se a Fotografia pertencesse a um mundo que fosse ainda sensível ao mito, não se deixaria de exultar perante a riqueza do símbolo: o corpo amado é imortalizado pela mediação de um metal precioso, a prata (monumento e luxo). E a isto acrescentar-se-ia a ideia de que esse metal, como todos os metais da Alquimia, está vivo.
É talvez porque me encanta, (ou me entristece) saber que a coisa do passado, pelas suas radiações imediatas (a sua luminescência), tocou realmente a superfície que, por seu turno, o meu olhar vem tocar, que não gosto nada da cor. Um daguerreótipo anónimo de 1843 mostra, em medalhão, um homem e uma mulher, coloridos posteriormente pelo miniaturista do estúdio do fotógrafo. Tenho sempre a impressão (pouco importa o que realmente se passa) que, do mesmo modo, em toda a fotografia a cor é uma demão posteriormente aposta à verdade do preto e branco. A cor é, para mim, um postiço, uma pintura (como a que se faz aos cadáveres). Porque aquilo que importa não é a «vida» da foto (noção puramente ideológica), mas a certeza de que o corpo fotografado vem tocar-me com os seus próprios raios, e não com uma luz de empréstimo.
(Assim, a Fotografia do Jardim de Inverno, por muito pálida que seja, é para mim o tesouro dos raios que emanavam da minha mãe criança, dos seus cabelos, da sua pele, do seu vestido, do seu olhar, nesse dia.)
(*) Exprimer, em francês, significa simultaneamente «espremer» e «exprimir». (N. do T.)
A Câmara Clara
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres
segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
Prazeres perdidos
«Recently, two Italian journalists wrote a three-page newspaper article (in print, alas) about the decline of handwriting. By now it’s well-known: most kids – what with computers (when they use them) and text messages – can no longer write by hand, except in laboured capital letters.
(…) The art of handwriting teaches us to control our hands and encourages hand-eye coordination.
The three-page article pointed out that writing by hand obliges us to compose the phrase mentally before writing it down. Thanks to the resistance of pen and paper, it does make one slow down and think. Many writers, though accustomed to writing on the computer, would sometimes prefer even to impress letters on a clay tablet, just so they could think with greater calm.
It’s true that kids will write more and more on computers and cellphones. Nonetheless, humanity has learned to rediscover as sports and aesthetic pleasures many things that civilisation had eliminated as unnecessary.»
Umberto Eco - The Lost Art of Handwriting
The Guardian, Monday 21 September 2009
(o bold é meu)
O artigo que li hoje, de Umberto Eco, veio recordar-me de algo sentido há uns dias atrás, quando a minha permanente inquiridora de 8 anos de idade, segurando um postal na mão, me perguntava o que era e para que servia. Constatei, com pena, que o desconhecimento se deve não somente devido à tenra idade, mas também porque tal forma de comunicar caiu em desuso.
Há, de facto, um constante sentido de urgência que nos empurra para o essencial, para eliminar o supérfluo. Rendemo-nos ao imediato do SMS, do email e da mensagem electrónica e sacrificamos o prazer doce/amargo da antecipação, da espera pela passagem do carteiro que trará notícias de alguém que nos é querido. Trocamos o toque pessoal da caligrafia pela eficiência formatada da comunicação virtual.
Não vou sequer descrever a perda que é, para muitos, desconhecer a magia de ver aparecer debaixo de tons vermelhos uma imagem em papel branco.
Todos os dias leio mais um artigo ou notícia sobre algo relacionado com a disponibilização de obras literárias por via electrónica. Entristece-me que a evolução tecnológica se tenha lembrado de achar bem querer substituir e eliminar o prazer de folhear um livro, de lhe poder sentir a idade nas páginas velhas, de o poder emprestar a alguém e com isso escrever nele também um pouco de uma história para além da história.
Mais do que a perda de uma Arte de que Eco fala, eu vejo neste fenómeno e em outros semelhantes a perda de pequenos prazeres que nos enriquecem a vida. É nossa obrigação fazer com que não desapareçam de vez.
Escusado será dizer que a inquiridora já sabe o que é aguardar uma resposta na volta do correio.
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
A explicação que me faltava...
(...)o fotógrafo, tal como um acrobata, deve desafiar as leis do provável ou até do possível; a um ponto extremo, ele deve desafiar as do interessante. A foto torna-se "surpreendente" a partir do momento em que não se sabe porque é que foi tirada; qual o motivo e qual o interesse de fotografar um nu a contraluz no vão de uma porta, a parte da frente de um velho automóvel na relva, um cargueiro no cais, dois bancos numa pradaria, nádegas de mulher numa janela rústica, um ovo sobre um ventre nu (fotos premiadas num concurso de amadores)? Inicialmente, a Fotografia, para surpreender, fotografa o notável; mas, em breve, por meio de uma reviravolta conhecida, ela decreta que é notável aquilo que fotografa. O "não importa o quê" torna-se então o cúmulo sofisticado do valor.
A Câmara Clara - Nota sobre a fotografia
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres
Morte bizarra
A Câmara Clara - Nota sobre a fotografiaA Foto-retrato é um campo de forças fechado. Aí se cruzam, se confrontam e se deformam quatro imaginários. Perante a objectiva eu sou simultaneamente aquele que eu julgo ser, aquele que eu gostaria que os outros julgassem que eu fosse, aquele que o fotógrafo julga que sou e aquele de quem ele se serve para exibir a sua arte. Por outras palavras trata-se de uma acção bizarra: não paro de me imitar a mim próprio e é por isso que sempre que me fotografam (que deixo que me fotografem) sou invariavelmente assaltado por uma sensação de inautenticidade, por vezes de impostura (como alguns pesadelos podem provocar). Ao nível imaginário, a Fotografia (aquela de que tenho a intenção) representa esse momento deveras subtil em que, a bem dizer, não sou nem um sujeito nem um objecto, mas essencialmente um sujeito que sente que se transforma em objecto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese), torno-me verdadeiramente espectro. O Fotógrafo sabe isso muito bem e ele próprio receia (nem que seja por razões comerciais) essa morte na qual o seu gesto me vai embalsamar.
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres
sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
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