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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os raios luminosos, a cor

Diz-se muitas vezes que foram os pintores que inventaram a Fotografia (transmitindo-lhe o enquadramento, a perspectiva albertiniana e a óptica da camera obscura. E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema «Isto foi» só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade à luz dos sais de prata) permitiu captar e imprimir directamente os raios luminosos emitidos por um objecto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que vêm tocar-me, a mim, que estou aqui. Pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem tocar-me como os raios emitidos por uma estrela. Uma espécie de ligação umbilical liga o corpo da coisa fotografada ao meu olhar: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que eu partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.
Parece que em latim «fotografia» se diria: «imago lucis opera expressa», isto é, imagem revelada, «saída», «montada», «exprimida» (*) (como o sumo de limão) pela acção da luz. E se a Fotografia pertencesse a um mundo que fosse ainda sensível ao mito, não se deixaria de exultar perante a riqueza do símbolo: o corpo amado é imortalizado pela mediação de um metal precioso, a prata (monumento e luxo). E a isto acrescentar-se-ia a ideia de que esse metal, como todos os metais da Alquimia, está vivo.
É talvez porque me encanta, (ou me entristece) saber que a coisa do passado, pelas suas radiações imediatas (a sua luminescência), tocou realmente a superfície que, por seu turno, o meu olhar vem tocar, que não gosto nada da cor. Um daguerreótipo anónimo de 1843 mostra, em medalhão, um homem e uma mulher, coloridos posteriormente pelo miniaturista do estúdio do fotógrafo. Tenho sempre a impressão (pouco importa o que realmente se passa) que, do mesmo modo, em toda a fotografia a cor é uma demão posteriormente aposta à verdade do preto e branco. A cor é, para mim, um postiço, uma pintura (como a que se faz aos cadáveres). Porque aquilo que importa não é a «vida» da foto (noção puramente ideológica), mas a certeza de que o corpo fotografado vem tocar-me com os seus próprios raios, e não com uma luz de empréstimo.
(Assim, a Fotografia do Jardim de Inverno, por muito pálida que seja, é para mim o tesouro dos raios que emanavam da minha mãe criança, dos seus cabelos, da sua pele, do seu vestido, do seu olhar, nesse dia.)

(*) Exprimer, em francês, significa simultaneamente «espremer» e «exprimir». (N. do T.)


A Câmara Clara
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres

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