A Câmara Clara - Nota sobre a fotografiaA Foto-retrato é um campo de forças fechado. Aí se cruzam, se confrontam e se deformam quatro imaginários. Perante a objectiva eu sou simultaneamente aquele que eu julgo ser, aquele que eu gostaria que os outros julgassem que eu fosse, aquele que o fotógrafo julga que sou e aquele de quem ele se serve para exibir a sua arte. Por outras palavras trata-se de uma acção bizarra: não paro de me imitar a mim próprio e é por isso que sempre que me fotografam (que deixo que me fotografem) sou invariavelmente assaltado por uma sensação de inautenticidade, por vezes de impostura (como alguns pesadelos podem provocar). Ao nível imaginário, a Fotografia (aquela de que tenho a intenção) representa esse momento deveras subtil em que, a bem dizer, não sou nem um sujeito nem um objecto, mas essencialmente um sujeito que sente que se transforma em objecto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese), torno-me verdadeiramente espectro. O Fotógrafo sabe isso muito bem e ele próprio receia (nem que seja por razões comerciais) essa morte na qual o seu gesto me vai embalsamar.
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres
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