(...)o fotógrafo, tal como um acrobata, deve desafiar as leis do provável ou até do possível; a um ponto extremo, ele deve desafiar as do interessante. A foto torna-se "surpreendente" a partir do momento em que não se sabe porque é que foi tirada; qual o motivo e qual o interesse de fotografar um nu a contraluz no vão de uma porta, a parte da frente de um velho automóvel na relva, um cargueiro no cais, dois bancos numa pradaria, nádegas de mulher numa janela rústica, um ovo sobre um ventre nu (fotos premiadas num concurso de amadores)? Inicialmente, a Fotografia, para surpreender, fotografa o notável; mas, em breve, por meio de uma reviravolta conhecida, ela decreta que é notável aquilo que fotografa. O "não importa o quê" torna-se então o cúmulo sofisticado do valor.
A Câmara Clara - Nota sobre a fotografia
Roland Barthes
Edições 70
Tradução de Manuela Torres
Sem comentários:
Enviar um comentário