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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Retrato

"A maior revolução desta época, porém, passou pelso écrans de televisão. (...) Tudo o que acontecia, acontecia na televisão, e era a televisão que fazia acontecer tudo. É difícil exagerar o impacto das novas estações de televisão. Provocaram o maior abalo cultural da sociedade portuguesa desde o 25 de Abril. Destruíram inibições, revolveram hierarquias.
(...) Ao lado dos ciclos políticos, passou assim a haver os ciclos televisivos, aliás curiosamente alinhados: a SIC ultrapassou a RTP em 1995, com a queda de Cavaco, e a TVI ultrapassou a SIC em 2001, com a queda de Guterres.
Essa cultura comercial, plebeia e instável, oscilando entre o cinismo e a comoção (como aquando da morte da princesa Diana, em 1997), horrorizou as elites políticas e intelectuais. Acima de tudo, porém, as velhas elites ressentiram o aparecimento de um novo poder, aquele que fazia dizer a Emídio Rangel, o director da SIC, em Outubro de 1997, que um canal com audiência de 50% podia vender tudo, até Presidentes da República.(...) Com o recuo da influência da igreja, a marginalização das forças armadas, e a banalização da universidade, as fontes de autoridade não pareciam ser claras. Mas a televisão era uma delas.
A cultura erudita tinha menos para mostrar. Entre 1993 e 1995, houve o êxito da "História de Portugal" dirigida por José Mattoso, com mais de 100 mil exemplares de tiragem. Em 1994, o sucesso de António Damásio, professor de neurociência nos EUA, com "O Erro de Descartes", traduzido em mais de vinte línguas. Em 1998, finalmente um Nobel da litereatura, para José Saramago, então com 76 anos e a viver em Espanha. Mas dentro do país as grandes vendas de livraria no fim do século eram proporcionadas pela versão portuguesa da chamada chick lit, com Margarida Rebelo Pinto ("Sei Lá", em 1999, e "Não há Coincidências" em 2000).
Rui Ramos (excertos)
 in Revista Expresso, 25/Ago/2012

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