"Ele é produto de uma infância danificada, percebeu isso há muito; o que o surpreende é que o pior dano não tenha sido causado no aconchego do lar mas sim lá fora, na escola.(...)Durante os seus anos de escola em Worcester, os professores, eles próprios formados por sequazes de Kuyper, tinham passado o tempo a esforçar-se por formá-lo a ele e aos outros rapazinhos a seu cargo - por formá-los como um oleiro forma um vaso de barro; servindo-se dos patéticos e incoerentes meios que tinha ao seu dispor, resistira-lhes, resistira-lhes então como hoje lhes resiste.Mas por que razão resistira tão obstinadamente? De onde lhe vem essa resistência, essa recusa em aceitar que o objectivo último da educação seja formá-lo em obediência a uma dada imagem predeterminada, que de outro modo não teria forma, chafurdando ao invés num estado natural, perdido, selvagem? Só pode haver uma resposta: o âmago da sua resistência deve ter vindo da mãe.(...)A missão do educador, segundo a mãe, devia ser identificar e alimentar os talentos naturais da criança, os talentos com que a criança nasce e que a tornam única. Ao representar a criança como uma planta, o educador deve nutrir as raízes da planta e vigiar o seu crescimento, em lugar de - como pregavam os kuyperistas - lhe podar os ramos e dar-lhe forma."
Verão
J.M. Coetzee
D. Quixote
Trad. J. Teixeira de Aguilar
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