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domingo, 28 de dezembro de 2008

Dá que pensar



A rede social Facebook procedeu à remoção de todas as fotografias de mães a amamentar colocadas na sua rede pelos seus utilizadores, sob o pretexto de as mesmas se enquadrarem no género de imagens consideradas vulgares, obscenas e/ou ofensivas e, desta forma, susceptíveis de serem banidas ao abrigo dos termos de utilização que todos os utilizadores se comprometem cumprir aquando do seu registo. Nesse conjunto de regras podemos ler que um utilizador se compromete a não:
• upload, post, transmit, share, store or otherwise make available any content that we deem to be harmful, threatening, unlawful, defamatory, infringing, abusive, inflammatory, harassing, vulgar, obscene, fraudulent, invasive of privacy or publicity rights, hateful, or racially, ethnically or otherwise objectionable;

Perante os inúmeros protestos que esta decisão já levantou, os responsáveis acrescentam ainda que não se trata de uma decisão de iniciativa da Facebook, mas antes uma resposta da mesma ao facto de essas fotos terem sido “marcadas” como ofensivas por parte de outros membros e de que tal acção visou apenas as imagens nas quais seria visível a auréola ou parte do mamilo. Situa-se pelos vistos neste pormenor a fronteira entre o que é ou não considerado pornográfico ou ofensivo.

É ainda referido que a rede oferece aos seus utilizadores a possibilidade de criarem álbuns não-públicos, visíveis apenas a amigos a quem é dada pelo utilizador a necessária permissão para a visualização das imagens. Ao serem desta forma retiradas do domínio público, elas deixam de ser consideradas problemáticas para a Facebook e o utilizador mantém a possibilidade de as poder partilhar com quem entender, sem ferir susceptibilidades alheias.

Será porventura um caso de “na minha casa mando eu”. Se queres utilizar este serviço cumpres as minhas regras, caso contrário és livre de sair quando entenderes.

De qualquer forma a expressão “any content that we deem to be harmful” deixa-me alarmada e muito desconfortável. Sinto que de alguma forma este tipo de decisão unilateral daquilo que é ou não abusivo, aquilo que é ou não vulgar ou ofensivo limita a liberdade de cada um o poder decidir por si próprio. Hoje é a Facebook, dentro de todos os limites legais a decidir onde essa linha se traça. Amanhã será possível que, por exemplo, quem me aloja o blog ou o site que ainda não tenho possa ter o mesmo poder. Nesse dia, a casa é minha, mas as regras não são. O que para mim é arte, e que quanto a mim merece ser partilhado com o mundo, será banido pelo lápis azul de quem tem o controlo na mão.

Nada disto é novidade, calculo. Mas temo o dia em que este tipo de notícias sejam recebidas com indiferença, pior que isso, com conformismo.

3 comentários:

Anónimo disse...

Na minha opinião, esse tipo de censura sempre existiu. Nós é que pensamos, por via da aparente facilidade de "self publishing", que temos a liberdade de nos manifestarmos como bem entendemos. Na realidade, não temos essa liberdade; temos apenas algumas "migalhas" de liberdade, que nos fazem supor que o bolo é nosso...

monica_martins disse...

O que é certo é que as aparências iludem e bem!
Habituamo-nos a conviver dia após dia com essa falsa noção de controlo e de liberdade e acabamos por tomá-la por garantida, quando na realidade ela simplesmente não existe.

Anónimo disse...

Ah pois é... Aliás, como tudo o resto na nossa vida; a nossa pretensa liberdade está fortemente limitada por coisas como os créditos bancários, etc, etc.

Mas deixa-me voltar ao espírito natalício, estou a ficar amargo ;)