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terça-feira, 4 de novembro de 2008

Contar Histórias - Uma aventura na EB1 + JI da Qta do Anjo

A pedido do Mário, que quis que eu escrevesse e partilhasse no blogue dele a minha experiência na odisseia de ensinar Fotografia a diabretes de 7 anos, e que admitiu o abuso de um "testamento" em lugar de um breve resumo :)

Passo a transcrever aqui na íntegra, para partilhar igualmente com aqui vem parar:

Contar histórias - Uma aventura na Escola Básica EB1 + JI da Quinta do Anjo

Sempre tive pelos meus professores uma profunda admiração. Por todos sem excepção mas muito especialmente pelos que tinham verdadeiro talento e vocação para serem quem eram. Nunca fui capaz de me visualizar no lugar deles, antes pelo contrário sempre me senti completamente incapacitada para esse papel.

A vida, no entanto, tem episódios irónicos e sem querer saber das minhas inseguranças, eis que me encontrei esta semana perante um grupo de ouvintes, com a tarefa de tentar ensinar algumas das coisas que sei. Naturalmente, sendo a “tarefa” algo que se relaciona com aquilo que mais gosto de fazer, com algo que me apaixona, ou seja, sobre Fotografia, o grau de dificuldade decresce para valores mínimos, restando apenas o desafio de ser capaz de lidar com a multidão.

A odisseia começara duas semanas antes, numa saída com a turma do 3ªC, para recolha de imagens alusivas ao património cultural da aldeia, tema que serve de base ao projecto que estão a desenvolver, e durante o qual lhes coloquei nas mãos uma pequena máquina de filme semelhante a esta:

As reacções foram algumas das que já esperava: apesar de a máquina não ser muito grande ainda assim havia alguma dificuldade no posicionamento das mãos pequenitas; a curiosidade pela rodinha que foca e desfoca, a surpresa e alguma desilusão ao espreitar para a parte de trás da máquina logo após o clique e constatar que não havia lá uma imagem para ver. Uma pequena desilusão que procurei contornar com o primeiro conto de fadas desta aventura:

“Estas máquinas eram usadas pelos espiões nos tempos da Grande Guerra! Claro que na altura ainda não havia as máquinas que há hoje, mas mesmo se houvesse eles nunca as iriam usar!! Não podiam ter as imagens à vista para ninguém saber o que eles andavam a fotografar! Só no escuro e com líquidos especiais é que se consegue ver o que cá está!”

Por necessidade de chegarmos a resultados práticos em tempo útil, decidiu-se abreviar o processo e não passar pela fase da revelação do filme. Pouco daria para transmitir dessa fase do processo e o tempo passado no escuro ou a testemunhar o agitar monótono de um tanque não teria grande utilidade prática. Foi, portanto, decidido por mim e pela professora da turma que a próxima sessão seria de ampliação das imagens fotografadas. Desta forma procedemos à montagem de um mini laboratório numa pequena sala anexa à sala de aula, normalmente destinada às actividades de expressão plástica. A sala dispunha de um armário com lavatório embutido e com tomadas eléctricas por cima do balcão. Apesar de haver uma janela e duas portas de acesso à sala, foi relativamente fácil obter um nível suficiente de escuridão.

Abre-se a porta, entram 24 cabecitas com uma média de 7 enérgicos anos de vida cada uma: 24 pares de olhos curiosos por ver tudo, 24 pares de mãos ansiosos por mexer em tudo. No meio do empurra-empurra, do “eu é que fico à frente” sai uma sugestão do meio do caos:

- E se nos sentássemos todos no chão?
- Boa ideia! – respondo eu;
- Eu sou muita bom! - Devolve o meu perspicaz aluno

Passamos à segunda história do fantástico: a desmistificação do Papão e do Monstro do Armário. Ensinar que o escuro afinal… não é assim tão escuro. Que depois de apagadas as luzes, se olharmos bem bem com atenção, afinal há luz em todo o lado, que o que aparece não são monstros, são sombras das coisas que já lá estavam, apenas agora iluminadas de outra forma! Distribuem-se pedacinhos de fita adesiva preta pelas mãozitas de todos e em breve temos um laboratório completamente estanque à entrada de qualquer raiozito de sol ou luz de lâmpada!

Segue-se a formação dos alquimistas: não vamos fabricar ouro mas vamos revelar prata!

Apresentam-se os instrumentos, dão-se os alertas de segurança, avisa-se que o cheiro que anda no ar não é nada mais que o vinagre que a mãe usa lá em casa na salada e ….faz-se luz, vermelha: ouve-se num uníssono sussurrado “Que fixeeeee!!” Não sei onde foram buscar a ideia que no escuro se deve falar em voz baixa, mas fico-lhes grata por esse mito que trato de preservar intacto!

Passamos à organização em grupos: a turma prossegue com a aula a decorrer normalmente na sala ao lado e entram rotativamente em grupos de 4 para cada grupo ver a ampliação de uma das imagens feitas no passeio. Por falta de altura física o posicionamento dos negativos no ampliador e focagem fica a meu cargo; a cada um dos quatro elementos de cada grupo cabe a agitação da folha de papel em cada uma das tinas: revelador, paragem, fixador e lavagem.

Durante a ampliação, três momentos altos a destacar: a projecção da imagem no papel ainda “ao contrário”- o preto onde devia ser branco e o branco onde devia ser preto; o momento único e mágico da imagem a revelar-se, o acender da luz e observação da fotografia já concluída e feita pelas mãos deles.

A ser sincera, desde o início que duvidava que essa noção lhes fosse compreensível, a noção de que estavam a produzir uma fotografia por um processo artesanal. Mas o relacionamento com crianças é isto mesmo: uma fonte inesgotável de surpresas. Quando comento com um grupo que uma fotografia podia ter ficado melhor, que havia zonas onde poderíamos ter escurecido um pouco mais, que a imagem estava bonita mas com tempo poderíamos sempre fazer outras experiências e tentar que ficasse mais perfeita, oiço como resposta a frase do dia:

- Oh, isto é como os bolos! Os da pastelaria são sempre mais bonitos mas os melhores são os que nós fazemos em casa!

Do ponto de vista da escola, logicamente que foi uma ideia extremamente bem recebida, muito produtiva, uma oportunidade de proporcionar aos alunos uma experiência nova e uma forma diferente de trabalharem o projecto em curso, tudo com a vantagem acrescida de não envolver custos para a escola ou para os alunos.

Pela parte que me toca, no final do dia, o que ganhei com todo o trabalho e tempo dispendido é, para mim, incalculável, a recompensa é bem maior do que alguma vez poderia traduzir em números ou quantificar em objectivos alcançados.

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